IMOBILIÁRIO: Build-to-Rent apontada como resposta à crise da habitação...

A oferta insuficiente face a uma crescente pressão na procura por habitação na Grande Lisboa e no Grande Porto exige muito mais do que medidas fiscais como a redução do IVA, uma vez que o problema habitacional no país, sobretudo nestas nas áreas metropolitanas, é estrutural. É neste contexto que o modelo Build-to-Rent (BTR) surge como possível solução para gerar escala e aumentar oferta.

De acordo com o primeiro relatório da Cushman & Wakefield (C&W) dedicado à promoção residencial na Grande Lisboa e no Grande Porto, haverá um agravamento das dificuldades de acesso à habitação no segmento médio, o que acentua a necessidade de novos modelos de promoção, como o BTR. O estudo evidencia ainda assimetrias territoriais e uma crescente divergência entre centros e periferias em termos de preços de venda e arrendamento.

Ana Gomes, Partner e Head of Research da Cushman & Wakefield Portugal, sublinha que o país “enfrenta há vários anos um problema grave de falta de oferta habitacional, estrutural e multifacetado, que importa compreender de forma clara para podermos encontrar soluções eficazes”. Sobre o relatório, com periodicidade bienal, a responsável revela, em comunicado, que a ambição é que este “se torne uma referência para acompanhar a evolução do mercado e avaliar, de forma objectiva, o impacto das políticas públicas implementadas”.

Build-to-Rent: um modelo com potencial

O estudo da C&W destaca o grande potencial deste modelo já muito relevante em vários mercados europeus, uma vez que se baseia em habitação construída de raiz para arrendamento, criando oferta com escala, apesar dos desafios em termos de custos, enquadramento regulatório e acessibilidade das rendas.

Sobre as recentes medidas públicas para estimular a oferta habitacional, como o pacote “Construir Portugal – Arrendamento e Simplificação”, a Cushman & Wakefield alerta para o facto de o impacto destas medidas depender da sua capacidade de gerar projetos com escala e reduzir custos de forma efectiva.

“É importante não criar a expectativa de que a redução do IVA, por si só, irá desencadear uma nova vaga de construção. O mercado precisa sobretudo de escala, de projectos maiores e de condições que permitam reduzir custos e riscos para os promotores. No arrendamento, é fundamental encarar a promoção de raiz como um produto específico, com regras próprias, para que possa afirmar-se como uma verdadeira alternativa à promoção para venda”, alerta Ana Gomes.

Estas são as principais conclusões do relatório da C&W:

O mercado de transacções continua a ser dominado pela habitação usada, com a promoção nova a ter um impacto limitado na resposta ao crescimento da procura;

Lisboa e Porto destacam-se como mercados estruturalmente mais robustos, sustentados pela capacidade de reter população em idade activa, o que suporta valores mais elevados e viabiliza novos projectos, ainda que com tipologias mais compactas;

Nos concelhos periféricos, a procura jovem revela-se mais limitada, mas o número de agregados familiares aumentou reflectindo um desajuste entre necessidades habitacionais e capacidade económica, o que condiciona a absorção, pressiona a viabilidade dos projectos e explica preços mais baixos;

A falta de promoção nova, sobretudo com escala, antecipa um agravamento das dificuldades de acesso à habitação no segmento médio e em localizações periféricas, já próximas dos limites de acessibilidade;

Torna-se essencial desenvolver novos modelos de promoção que permitam ganhar escala, reduzir prazos e baixar custos de construção;

O desenvolvimento do Build-to-Rent depende do reconhecimento deste modelo como um produto distinto da promoção para venda, exigindo condições fiscais, regulatórias e urbanísticas adequadas;

Em algumas áreas suburbanas, o envelhecimento da população poderá conduzir à libertação de habitação existente, criando oportunidades para reabilitação e reforço da oferta sem depender exclusivamente de nova construção.

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