OUTROS TEMAS: Uma viagem à “história e ao tesouro do vinho do Porto” com 236 anos...
Durante mais de 200 anos, a Feitoria Inglesa manteve as suas tradições em volta do vinho do Porto, os seus almoços de quarta-feira, as visitas de reis, rainhas e presidentes da República. Mas no início de 2026 aquela que é a última feitoria sobrevivente no mundo abriu as suas portas a todos. “O objectivo com esta abertura ao público não foi criar um museu, mas sim abrir as portas a uma instituição viva”, partilha connosco Zoe Graham, membro da administração da Feitoria Inglesa, situada no coração do Porto.
A ideia foi, sim, “partilhar com o mundo” a história da Feitoria Inglesa que cruza memória do vinho do Porto com a evolução da própria cidade Invicta ao longo do tempo. A sua construção remonta ao final do século XVIII, tendo sido liderada pelo arquitecto e cônsul britânico John Whitehead, que introduziu o estilo neopalladiano na cidade e ajudou a difundi-lo para outras obras públicas.
“Para abrir a casa ao público, decidimos intervir o mínimo possível”, ressalva Zoe Graham. As tradições e os detalhes de cada espaço estão preservados. O que têm feito é “manter os traços originais e restaurar tudo de uma forma que seja o mais fiel possível ao original”, assinala a também co-CEO da Churchill Graham, destacando a cozinha do século XVIII, a biblioteca com obras inéditas e a garrafeira de vinho do Porto com mais de 15.000 garrafas.
Quem tem visitado a Feitoria Inglesa, no centro histórico da Invicta, não fica indiferente. “Temos cada vez mais procura dos portugueses por perceberem que esta história também lhes pertence”, comenta Zoe Graham, que vai assumir o cargo de tesoureira da Feitoria Inglesa em 2027 (o equivalente a presidente). O seu trabalho passará por continuar a preservar a memória e as tradições deste espaço, bem como por “captar aqui também um público à volta do vinho do Porto”, o qual “está a perder consumidores geracionais”.
A Feitoria Inglesa abriu portas ao público pela primeira vez em 236 anos. Porque decidiram fazê-lo?
A Feitoria Inglesa é a última feitoria sobrevivente no mundo e é a casa da British Association, que é a Associação das Empresas Britânicas de Vinho do Porto. E, hoje, o vinho do Porto vintage, em particular, está a perder consumidores geracionais. Por isso, temos aqui um tesouro, uma casa tão intimamente ligada à história do vinho do Porto e à própria cidade do Porto, que achámos que era importante começar a partilhar com o mundo.
“Em 1786, começou a construção da Feitoria Inglesa como conhecemos hoje, que terminou em 1790”
A construção da Feitoria Inglesa foi projectada pelo arquitecto e cônsul britânico John Whitehead no século XVIII. Quais são os principais traços arquitectónicos do edifício que destaca?
O John Whitehead foi o cônsul britânico no Porto durante muitos anos. E, em 1786, começou a construção da Feitoria Inglesa como conhecemos hoje, que terminou em 1790. Ele decidiu construí-la no estilo neopalladiano, que foi uma decisão muito deliberada e contracorrente, porque no Porto o estilo prevalente era o barroco tardio. É um edifício em granito sombrio que projecta uma imagem de racionalidade e de iluminação. Na época, o governador do Porto, o João de Almada e Melo, também queria muito projectar esta imagem moderna da cidade. Como era amigo de John Whitehead, apoiou o seu projecto.
Em que medida é que John Whitehead influenciou as obras públicas no Porto?
O John Whitehead também trouxe para cá um amigo de infância, o arquitecto inglês John Carr, que construiu o Hospital de Santo António, que é, talvez, o edifício do estilo neopalladiano mais conhecido do Porto. E, depois, também houve discípulos que trabalharam com o John Whitehead neste projecto e que continuaram este estilo neopalladiano noutras obras públicas. Por exemplo, o que é hoje o Museu Soares dos Reis e também o edifício da Reitoria da Universidade do Porto. Portanto, de uma certa forma, este estilo neopalladiano que começou aqui na Feitoria Inglesa, espelhou-se também na cidade do Porto durante o século XIX.
“John Whitehead também foi um pioneiro no sentido de promover obras e projectos culturais”
Qual foi a importância da Feitoria Inglesa no desenvolvimento económico do Porto ao longo dos séculos? E no comércio do vinho do Porto?
A British Association é uma associação sem fins lucrativos. Portanto, foi realmente o vinho do Porto que construiu esta casa, porque foram contribuições voluntárias das casas de vinho do Porto que financiaram o projecto - e até hoje continua assim. É uma associação onde os membros contribuem para a manutenção e a restauração da casa. John Whitehead também foi um pioneiro no sentido de promover obras e projectos culturais, criando, por exemplo, uma bolsa de estudo. A pintura do artista Vieira Portuense, que temos aqui, foi oferecida à Feitoria Inglesa por lhe ter pagado uma bolsa para estudar no estrangeiro.
Como é que a antiga Feitoria Inglesa se tem vindo a modernizar?
Acho que o objectivo da casa nunca foi modernizar os detalhes. É, sim, uma associação conservadora no sentido de manter os traços originais e restaurar tudo de uma forma que seja o mais fiel possível ao original. Temos aqui a cozinha antiga do século XVIII, que foi mantida exactamente como sempre foi nessa época. Temos os baldes de água de 1790, que são talvez os objectos mais antigos da casa. Quando foi decidido, de facto, ter uma cozinha moderna decidimos colocá-la noutra parte da casa e não modernizar a cozinha antiga. E é essa a base de decisões: nós não queremos modernizar os espaços. Talvez a modernização foi mais através do lado institucional. Por exemplo, as mulheres só no início deste século é que se tornaram membros da casa. A primeira tesoureira mulher foi Natasha Bridge em 2017 e eu serei a próxima em 2027, portanto, quase 200 anos depois da primeira mulher jantar aqui na casa.
“Para abrir a casa ao público, decidimos intervir o mínimo possível na casa”
Como descreve o trabalho de preservação da arquitectura e identidade da Feitoria Inglesa? Houve alguma obra necessária antes de abrir ao público?
Todos os anos temos obras de restauro. E o trabalho do tesoureiro – que é quase o presidente – passa por supervisionar as obras e o restauro que tem de ser feito. Recentemente, foi precisamente a pintura de Vieira Portuense que foi restaurada, bem como a mesa na sala de jantar. Temos todo o cuidado de trabalhar com especialistas internacionais e nacionais para ter estas peças na condição original.
Para abrir a casa ao público, decidimos intervir o mínimo possível. Nós temos cordões para bloquear o acesso a alguns locais que precisam de ser preservados. E, depois, temos uma visita autoguiada com apenas pequenas sinalizações ao lado de objectos de maior importância para que as pessoas possam visitar a casa e ver o que significam todos estes tesouros e estes objectos incríveis.
Quais são os principais recantos da Feitoria Inglesa que destaca? E quais é que têm despertado mais curiosidade ao público?
Acho que o ponto mais marcante em todas as visitas é quando passam pela garrafeira e veem ali o tesouro de 15.000 garrafas de vintage desde 1927 até ao presente – são 100 anos de história deste vinho único no mundo, que é o coração da casa. É incrível o facto de termos ali este tesouro por baixo dos pés das pessoas que passam nas ruas à volta da Feitoria. Outro espaço que é dos meus favoritos é a sala de jantar e o espelho para a sala de vintage, porque são exatamente iguais as mesas, as cadeiras… Depois da refeição, as pessoas passam para a sala de vintage, sentam se na mesma cadeira e podem fazer a prova de vintage à luz da vela sem qualquer aroma da comida. Depois, temos aqui uma biblioteca privada incrível que tem primeiras edições, como A Origem das Espécies e outros livros que remontam a essas datas.
“Temos fotografias da princesa Diana e do agora Rei Charles a visitarem a Feitoria, como também a Rainha Isabel”
Que outros objectos históricos têm em exposição?
Temos fotografias da princesa Diana e do agora Rei Charles a visitarem a Feitoria, como também a Rainha Isabel II. Também recebemos mais recentemente o Rei da Suécia e, claro, os presidentes da República. A própria comunidade britânica aqui no Porto oferece-nos objectos simbólicos e especiais, como o tinteiro que a Rainha Isabel II usou quando ela visitou a casa. Temos também garrafas que foram esmagadas no Blitz, em Londres, durante a Segunda Guerra Mundial, que acabaram por vir para a Feitoria para ficarem expostas ao público, para conhecerem também como o vinho do Porto tem presença em momentos históricos.
Que espaços do edifício continuam fechados ao público? Porquê? Que segredos escondem?
Diria que os espaços que continuam fechados é mais por motivos de preservação e logística. Temos de arquivar muitos objectos e, por exemplo, os jornais The Times. Ainda mantemos a tradição dos almoços do tesoureiro de quarta-feira e mostramos o jornal desse mesmo dia há 100 anos. São muitos jornais que têm de ser arquivados, por isso, temos várias salas que são dedicadas a essa logística. Mas todas as salas principais (de recepção, as salas de jantar, a cozinha antiga…) estão abertas ao público, pelo menos, nas visitas da manhã.
“Mantemos muitas das tradições de vinho do Porto que continuam um legado de 200 anos”
Que outros eventos particulares continuam a ocorrer na Feitoria Inglesa?
O objectivo com esta abertura ao público não foi criar um museu, mas sim abrir as portas a uma instituição viva. Nós ainda mantemos muitas das tradições de vinho do Porto que continuam um legado de 200 anos. Por exemplo, estes almoços de quarta-feira, mas também os jantares com convidados de todos os países, as visitas de famílias reais de embaixadores, dos presidentes portugueses… nós temos tido sempre. Se do outro lado do rio temos as caves de vinho do Porto, dedicadas ao comércio, esta casa é o lado social, diplomático e cerimonial do vinho do Porto.
Como têm corrido as visitas à Feitoria Inglesa desde a abertura ao público no início de 2026? Qual é o perfil dos turistas (nacionalidades, grupos/famílias, idades, etc)?
É interessante. Temos cada vez mais procura dos portugueses por perceberem que esta história também lhes pertence. A história da Feitoria Inglesa cruza-se com o vinho do Porto e com a cidade do Porto, com os momentos históricos mais importantes e mais marcantes da história desta cidade. Por exemplo, a casa teve de ser abandonada durante dois anos, quando as forças francesas a ocuparam em 1709. Só quando o duque de Wellington livrou o Porto e esta casa é que os membros e os sócios puderam voltar em 1811. Quando vieram libertar a cidade, os oficiais do Exército de Wellington assinaram aqui os nomes num livro de visitas, obra que está exposta para os visitantes verem.
Portanto, é um público muito diverso de todas as idades. Continuamos também a receber aqui - e sempre recebemos - os Masters of Port (um público mais especialista) e também o público turístico não só portugueses, mas ingleses dos mercados de vinho do Porto, que conhecem mais esta história.
“De manhã (…) a visita é um pouco mais aprofundada, onde se passa pela cozinha antiga e depois fazemos também a prova na sala de jantar”
Além das visitas, que outras experiências oferecem na Feitoria Inglesa aos turistas? Provas de vinho do Porto, por exemplo?
Temos duas visitas distintas de manhã e à tarde. De manhã, oferecemos também uma prova de dois vinhos do Porto vintage que são escolhidos da nossa garrafeira. Trata-se uma visita um pouco mais aprofundada, onde se passa pela cozinha antiga e depois fazemos também a prova na sala de jantar, onde fazemos sempre as provas de vintage depois dos jantares e almoços importantes. A ideia é dar um pouco a experiência do que tem sido a vivência da casa.
Quais é que são as vossas expectativas sobre as visitas da Feitoria Inglesa até ao final do ano?
Com esta divulgação ao público, esperamos que cada vez mais pessoas nos procurem e que venham nos visitar quando vêm ao Porto, porque muitos dos turistas que vêm ao Porto acabam por não cruzar o rio e ir até Gaia. Temos ali as nossas caves de vinho do Porto e damos a conhecer toda a tradição de vinho do Porto no outro lado do rio. Mas aqui no Porto achamos importante também ter um espaço onde as pessoas possam ter esta experiência. Acho que cada vez mais vamos conseguir captar aqui também um público à volta do vinho do Porto.
“A Feitoria Inglesa faz todo o sentido promover deste lado, porque temos aqui três séculos de história tão intimamente ligada à história do Porto”
Já é um espaço de referência para o turismo da Invicta? Porquê?
Espero que venha a ser. Acho que a Feitoria Inglesa faz todo o sentido promover deste lado, porque temos aqui três séculos de história tão intimamente ligada à história do Porto. Estamos a trabalhar para isso e considero que temos bons parceiros também na cidade do Porto que nos ajudam.
Contactos: +351 913 335 560 / nuno.garrido@casaviva.pt / @nuno_miguelgarrido








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