OUTROS TEMAS: A batalha dos electrodomésticos - onde se esconde a sua factura da luz?



A electricidade está em quase tudo o que fazemos em casa. Acorda-nos, aquece o café, conserva os alimentos, lava a roupa, prepara o jantar e ainda garante que temos televisão, internet e carregadores suficientes para toda a família.

O problema é que nem sempre sabemos quanto custa cada gesto. Será que um programa de lavagem com três horas pode gastar menos do que outro com apenas uma? A airfryer é sempre mais económica do que o forno? E vale mesmo a pena desligar a televisão da tomada?

Com a factura média do mercado regulado a subir cerca de 2,7% a partir de 1 de Outubro de 2026, conhecer melhor a energia que percorre a nossa casa pode ajudar a travar o aumento. Segundo os exemplos divulgados pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) e citados pela Lusa, um casal sem filhos pagará mais 95 cêntimos por mês, enquanto uma família com dois filhos terá um acréscimo médio de 2,70 euros mensais. Por ano, representa um acréscimo de 11,40 euros para o primeiro caso, e de mais 32,40 euros, para o segundo.

Não significa que seja preciso passar a jantar à luz das velas, mas talvez valha a pena perceber onde “se esconde” a despesa da electricidade e começar pelas escolhas que realmente pesam no orçamento.

Quem devora mais electricidade lá em casa?

Para tornar as comparações claras, considerámos um preço indicativo de 0,1705 euros por kWh, correspondente à componente de energia da tarifa regulada a partir de Outubro. Os valores não incluem potência contratada, impostos, taxas ou serviços adicionais e podem variar consoante o modelo e o contrato.



Programa Eco ou programa rápido?

O nome engana: um ciclo mais curto não gasta necessariamente menos. Aquecer água exige muita energia, e o programa Eco compensa a duração maior com temperaturas inferiores e aquecimento mais gradual.

Na máquina de lavar roupa, o Eco 40–60 é o programa usado para medir o consumo apresentado na etiqueta energética. Deve ser a escolha habitual para cargas normais e sem urgência. O rápido continua a ser útil para pouca roupa e sujidade ligeira, mas não deve ser escolhido automaticamente por parecer mais económico.

O mesmo princípio aplica-se à máquina de lavar loiça: carga completa, programa Eco e nada de passar previamente todos os pratos por água quente. Segundo a Comissão Europeia, uma máquina eficiente usa cerca de nove litros para até 15 serviços, enquanto a lavagem manual pode gastar cerca de 20 litros de água.

Forno ou airfryer?

Para uma ou duas doses, a airfryer tende a ganhar: aquece uma cavidade menor e muitas receitas dispensam pré-aquecimento. No exemplo da tabela, 20 minutos custam até nove cêntimos, contra 28 cêntimos para 45 minutos de forno.

Mas o forno recupera terreno quando fica cheio. Cozinhar dois tabuleiros ou preparar refeições para famílias grandes ou para vários dias pode ser mais eficiente do que ligar a airfryer três vezes. Para aquecer uma pequena porção já confeccionada, o micro-ondas é, em regra, a opção mais eficiente.

Comprar uma airfryer apenas para baixar a factura também pode não compensar: a poupança por utilização terá primeiro de pagar o equipamento.

A máquina de secar roupa é grande vilã?

O custo da secagem depende muito da tecnologia. Segundo a Comissão Europeia, uma máquina com bomba de calor consumia, em média, cerca de 1 kWh por ciclo, contra 2,7 kWh numa máquina ventilada ou de condensação com resistência eléctrica.

Ao preço usado neste guia, uma secagem pode variar aproximadamente entre 17 a 46 cêntimos. Quatro ciclos por semana equivalem a cerca de 35 a 96 euros por ano.

Antes de ligar a máquina, uma centrifugação mais elevada, se os tecidos permitirem, retira água por muito menos energia. Separar toalhas das peças leves, limpar o filtro e usar o sensor de humidade também evita prolongar a secagem.

Há outra comparação curiosa: um frigorífico combinado consome, em média, cerca de 181 kWh por ano, segundo a Comissão Europeia. Uma máquina de secar ultrapassa esse valor a partir de cerca de 129 ciclos anuais, ou duas a três utilizações por semana.

O frigorífico consome pouco, mas nunca descansa

O frigorífico não tem os picos do forno ou do aquecedor, mas funciona 24 horas por dia. Para não o obrigar a trabalhar mais, evite colocá-lo junto do forno ou de um radiador, confirme se a borracha da porta veda bem, deixe espaço para ventilação e não guarde alimentos ainda quentes.

Na compra, compare o consumo anual em kWh, não apenas a letra da etiqueta. Um frigorífico grande de classe elevada pode gastar mais do que um modelo menor de classe inferior. O código QR da etiqueta conduz à base oficial EPREL, onde é possível comparar os dados completos.

Aquecedor a óleo ou termoventilador: qual gasta menos?

Dois aquecedores eléctricos com a mesma potência podem custar praticamente o mesmo por hora. Um radiador a óleo de 2.000 W não consome automaticamente menos do que um termoventilador de 2.000 W: ambos podem gastar até 34 cêntimos por hora.

O que muda é a forma como entregam o calor. O termoventilador aquece depressa e pode ser útil por poucos minutos, por exemplo numa casa de banho. O radiador a óleo demora mais, mas liberta o calor gradualmente e pode ser mais confortável numa divisão ocupada durante várias horas. Convectores e aquecedores cerâmicos obedecem à mesma regra: o essencial é a combinação entre potência, tempo de uso e isolamento da casa.

É aqui que a conta cresce: um aquecedor de 2.000 W ligado quatro horas por dia pode custar até 40,92 euros em 30 dias. Para aquecer apenas uma pessoa, uma manta eléctrica de 100 W rondaria 2,05 euros por mês nas mesmas quatro horas diárias, desde que seja utilizada segundo as instruções de segurança.

E as pequenas poupanças?

Uma só televisão em espera pesa pouco; a soma de televisões, consolas, colunas, monitores e máquinas de café já pode justificar uma tomada múltipla com interruptor. Não desligue, porém, equipamentos que precisam de ligação permanente, como sistemas de segurança ou dispositivos médicos.

Nos LED, a prioridade também conta. Podem consumir até 90% menos do que as antigas lâmpadas incandescentes. Trocar uma lâmpada de 60 W por uma LED de 10 W, usada cinco horas por dia, pouparia neste exemplo cerca de 15,55 euros por ano. Comece, por isso, nas divisões onde a luz permanece acesa mais tempo.

Está a pagar por uma potência de que não precisa?

A factura de electricidade tem duas componentes que não devem ser confundidas: a potência contratada e a energia consumida.

A potência contratada determina quantos equipamentos podem funcionar ao mesmo tempo e influencia a parcela fixa da fatura. Não altera o consumo de cada aparelho que varia consoante a utilização.

De acordo com a ERSE, os clientes com potências até 6,9 kVA podem poupar entre 20 e 30 euros por ano por cada escalão que consigam baixar. Se o quadro nunca dispara, mesmo nos momentos de maior uso, pode existir margem para testar o escalão inferior. Antes de decidir, consulte o simulador de potência da ERSE.

Também vale a pena comparar o contrato no simulador de preços de energia. A tarifa bi-horária pode compensar para quem transfere máquinas, termoacumulador ou carregamento do automóvel para as horas de vazio; para quem concentra o consumo fora desse período, pode sair mais cara.

Por onde começar a poupar?

Se quiser reduzir a factura sem transformar a casa numa simulação da Idade Média, concentre-se em três decisões:

1. Controle o aquecimento eléctrico, sobretudo a potência e as horas de funcionamento.

2. Use máquinas cheias e programas Eco, reservando os ciclos rápidos para quando são realmente necessários.

3. Confirme a potência e o contrato, porque a poupança pode estar na parcela fixa ou no tarifário, e não no consumo.

A conclusão da batalha é simples: o aquecimento elétrico prolongado pode pesar mais num mês do que dezenas de ciclos das máquinas de lavar. Poupar não é colecionar proibições; é atuar primeiro onde cada escolha vale mais.

Calculadora: quanto custa usar um aparelho?

Procure a potência do equipamento, normalmente indicada em watts, e aplique:

Potência em watts ÷ 1.000 × horas de utilização × preço do kWh

Um aquecedor de 2.000 W ligado durante três horas poderá consumir até 6 kWh. Ao preço de referência deste artigo, custaria cerca de 1,02 euros.

A conta é aproximada, porque muitos aparelhos não trabalham continuamente na potência máxima. Para uma estimativa mais fiel, use o consumo indicado na etiqueta ou num medidor de tomada e substitua o preço de referência pelo valor do seu contrato.

Para perceber as restantes parcelas, a ERSE explica como ler a factura de electricidade.

Contactos: +351 913 335 560 / nuno.garrido@casaviva.pt / @nuno_miguelgarrido

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