OUTROS TEMAS: Sal na sanita à noite - o que o truque viral faz mesmo em sua casa...

Um punhado de sal grosso na sanita é um dos truques caseiros mais repetidos para combater maus cheiros, calcário e supostos entupimentos. A ideia é simples: deixar o sal agir durante a noite e puxar o autoclismo de manhã.

Mas será que resulta? Antes de experimentar, convém perceber o que o cloreto de sódio faz quando entra em contacto com água, cerâmica vidrada e tubagem. Um mau cheiro persistente numa casa de banho portuguesa raramente nasce dentro da sanita e pode exigir uma solução diferente.

O que o sal faz dentro da sanita?



O sal de cozinha é cloreto de sódio. Quando entra em contacto com a água da sanita, dissolve-se rapidamente e deixa a solução praticamente com o mesmo pH. Ou seja, não altera de forma relevante a acidez ou alcalinidade da água.

Isso explica por que não remove o calcário. O depósito que se acumula no fundo da sanita e sob o rebordo é carbonato de cálcio e só se desfaz com produtos ácidos, como vinagre, ácido cítrico ou um desincrustante próprio.

O sal grosso pode ter algum efeito abrasivo enquanto é esfregado contra uma superfície. Mas, deitado na água durante a noite, dissolve-se em poucos minutos e desaparece com o primeiro autoclismo.

Também não desinfecta a sanita em concentrações domésticas. As bactérias responsáveis pelo mau cheiro vivem muitas vezes agarradas à cerâmica e às paredes da tubagem, dentro de uma película chamada biofilme. Uma pequena quantidade de sal diluída na água não é suficiente para a remover.

O cheiro quase nunca vem da água da sanita



O mau cheiro numa casa de banho tem, geralmente, uma origem concreta. Antes de deitar sal na sanita, verifique estes pontos:

Sifão seco: a água do sifão impede a subida dos gases da canalização. Se evaporar, o cheiro entra na divisão. Acontece em ralos de duche pouco usados, bidés, lavatórios de serviço ou ligações de máquinas. Deite água nos ralos e aparelhos pouco utilizados. Se ficarem meses parados, uma colher de óleo alimentar sobre a água ajuda a atrasar a evaporação.

Biofilme sob o rebordo: os orifícios por onde entra a água acumulam sujidade que o piaçaba não alcança. Use uma escova estreita e um produto ácido adequado, deixando-o actuar antes de esfregar. 

Junta da base: se o silicone entre a sanita e o chão estiver degradado, a urina pode infiltrar-se por baixo da cerâmica. A solução passa por remover o silicone antigo, limpar, secar e refazer a junta.

Interior do autoclismo: a água parada pode criar depósitos e maus cheiros. Nos modelos exteriores, levanta a tampa e inspeciona. Nos encastrados, o acesso faz-se pela placa de comando. Atenção às pastilhas, porque algumas podem danificar as borrachas de vedação.

Ventilação: um exaustor avariado ou uma conduta obstruída impedem a renovação do ar, aumentam a humidade e agravam os odores.

Calcário: em Portugal depende do concelho onde vive



A dureza da água explica boa parte da diferença entre uma sanita que amarelece em meses e outra que se mantém limpa durante anos. Pela classificação da Organização Mundial de Saúde adoptada em Portugal, a água é macia abaixo de 60 mg/l de carbonato de cálcio e muito dura acima de 180 mg/l. A EPAL indica valores entre 40 e 170 mg/l em Lisboa, com uma média na ordem dos 80, e no Porto, a empresa municipal aponta cerca de 100 mg/l.

O depósito forma-se na linha de água e nos orifícios do rebordo, onde a água alterna entre estar presente e evaporar, deixando uma camada mínima de minerais em cada ciclo.

Para manchas ligeiras, pode usar vinagre branco ou ácido cítrico durante algumas horas, seguido de escovagem. Para crostas antigas, um desincrustante em gel pode ser mais adequado, como detalhámos no artigo sobre como tirar calcário incrustado.

Os riscos de repetir a operação todas as semanas

Deitar sal na sanita uma vez não estraga nada. O problema está na recomendação de repetir o gesto todas as semanas. Os cloretos aceleram a corrosão em metais ferrosos e favorecem a corrosão por picadas no aço inoxidável, o que desaconselha o uso repetido de água com sal em prédios antigos com colunas de queda em ferro fundido.

Mais sério é o caso de quem tem fossa séptica. O sistema depende de bactérias anaeróbias para digerir a matéria orgânica, e o sódio pode afectar a estrutura do solo nas trincheiras de infiltração, reduzindo a capacidade de absorção do terreno.

Numa casa sem ligação à rede pública, é um risco desproporcionado para um truque que não cumpre o que promete.

Contactos: +351 913 335 560 / nuno.garrido@casaviva.pt / @nuno_miguelgarrido

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